Como fiz esse retrato - Recreio-MG, Episódio 01

Desde que resolvi largar temporariamente os meus projetos atuais pra viajar por aí, aprender com outras pessoas virou o meu objetivo principal. Conversar com elas. Conhecê-las. Entender o quê, como e porque elas fazem o que fazem. Criar uma conexão mesmo, sabe?

Claudio na corda.

Claudio na corda.

Ter um interesse genuíno faz tudo ficar mais fácil e prazeroso, e pode tornar essa intimidade, mesmo que breve, ser muito profunda.

Coincidentemente, essa troca é o pré-requisito número um pra um bom retrato, que é um dos outros focos dessa empreitada.  Assim como mostrar um pouco os lugares que vou passando e o cotidiano da região e das pessoas.

Mas enquanto não arrumo as malas, o que deve acontecer só em fevereiro, porque não começar a praticar por aqui mesmo? Quanta gente interessante tem do nosso lado o tempo todo e às vezes a gente nem percebe! O que estou esperando?

Conheci o Guilherme e o Claudio no primeiro dia de academia e desde o começo batemos altos papos sobre esporte e saúde. Aprendi um pouquinho de como eles levam uma vida saudável, sem comer besteira, beber ou usar drogas. É uma inspiração muito positiva, sabe? 

Falamos sobre as peladas que o Guilherme joga aos finais de semana e as aulas de jiu-jitsu que o Claudio dá pra criançada. Também conversamos muito sobre fisiculturismo, boxe e escalada. Lembro o dia que o Claudio me indicou o Valley Uprising, um documentário incrível que mostra o nascimento da escalada em rocha no Vale de Yosemite. A partir dessa dica comecei a me interessar muito por esse esporte.

Guilherme com os pesos.

Guilherme com os pesos.

Acho que a gente aprende bastante um com o outro. Cada um tem uma forma distinta de ver as coisas, e como já falei aqui nesse blog, a gente aprende nas diferenças.

Semana passada já me senti confiante pra tentar alguma coisa. Que já poderia conseguir passar pelo menos um pouquinho de quem eles são. E não havia uma locação mais adequada do que a academia. Assim conseguiria mostrar não somente o lado atleta dos personagens como também onde eles passam a maior parte do tempo. 

Marcamos duas da tarde lá. Nos juntamos e pensamos em algumas possibilidades. Gostamos muito de um pneu de trator que estava encostado na parede. Mas não consegui fazer funcionar. Claudio chegou com a ideia de usar as cordas, então. E não poderia ter sido melhor. A foto dele matamos ali mesmo.

Já a do Guilherme eu queria que fosse mais simples. Achei que dessa forma poderia mostrar um pouco melhor quem ele é. Somando a importância que o fisiculturismo tem pra ele, a escolha parecia óbvia: sem camisa, peso na mão e olho na câmera. Na mosca! 

Mas pra mim não era suficiente. Eu queria uns retratos mais de perto. Queria mostrar as expressões. Escancarar os sentimentos. Eles toparam na hora, e o resultado está aqui embaixo.

Recreio está tomada!

Chovia pouco, só ao ponto de deixar as ruas molhadas e com um pouco de barro, mas o céu estava coberto de nuvens escuras. Não havia vento. Apenas mais um dia de verão em Recreio, pensei. Nas últimas duas semanas não houve um dia sequer em que abri a janela do meu quarto e vi o sol iluminando as montanhas. Por que me sentia estranho, então?

Alguma coisa dentro de mim não estava normal. Sentia algum perigo por perto. Como um sexto sentido. Eram oito horas da manhã, tinha acabado de me levantar e ainda meio sonolento, então achei que pudesse ser o resquício de um sonho ruim e não dei muita importância.

Escovei os dentes, coloquei a roupa de academia, tomei meu café e essa coisa não saia de dentro de mim. Um sentimento que só crescia. Atormentava. Achei que poderia ser mais complicado do que uma noite mal dormida.

Bati a porta de casa ainda esfregando os olhos. O café começava a fazer efeito. Andando pela rua vejo todas as portas e janelas fechadas. Nenhum passarinho cantando. Havia um silêncio perturbador. Nunca ouvira o barulho do meu tênis com tanta clareza. Não era só comigo. A cidade estava diferente.

Terça-feira e o comércio todo fechado. Nenhum ônibus. Nenhuma charrete. Passo pelas ruas do centro, tão movimentadas a essa hora e não há uma pessoa sequer. Estou sozinho.

Aperto o passo e olho assustado para os lados sem ter a mínima ideia do que está acontecendo. Reparo uma câmera. Dessas de segurança. Ela me acompanha a medida que vou avançando. Coincidência, talvez. Paro. A câmera para. Dou três passos pra trás. E ela segue focada em mim. É comigo.

Minha cabeça começa a girar e mesmo confuso e com medo volto a caminhar pra academia. Percebo uma câmera em cada casa do trajeto. Todas estão miradas em minha direção. Isso é muito maior do que pensei. Começo a correr pela calçada pra usar as paredes e as árvores como proteção. Quando de repente sinto alguém segurar o meu braço com força. Não tive escolha, parei.

- Shhhh! Recreio está tomada. Venha comigo - sussurrou no meu ouvido.

... (spoiler)...  a continuação conto como consegui fotografar esse misterioso indivíduo.

v for vendetta, mistério

Porque viajar pode ser bom para os negócios - Episódio NIKE

Como posso deixar minha marca no mundo, pensei, se não andar por ele e conhecê-lo?
— Phil Knight

No começo da década de sessenta, quando Phil Knight decidiu se aventurar pelo mundo, viajar pra longe não fazia parte da vida das pessoas como hoje. 90% da população americana não havia sequer embarcado em um avião. Não se escreviam artigos sobre a importância de um intercâmbio cultural. Não fazia parte do cotidiano. Era quase um tabu.  

Phil era um jovem de classe média, já formado e já tinha passado um ano no exército. Tinha ambição. Queria vencer. E vencer do seu jeito. Fazer diferença no mundo. Seguir o caminho tradicional - trabalhar para uma empresa, comprar uma casa e ter uma família - não seria suficiente.

Necessitava um propósito. Sentir no trabalho o mesmo frio na barriga de quando corria pela Universidade do Oregon nas competições nacionais. Mas não sabia exatamente como alcançar isso. 

Até aquele momento não tinha experimentado muitas coisas na vida. Não sabia quem era ou o que poderia vir a ser. Não sabia o que era ser bem-sucedido. 

Teve uma ideia. Pediu uma ajuda financeira ao seu pai, comprou uma passagem só de ida e lá foi ele em busca de auto-conhecimento.  

Primeira parada: Havaí.

Gostou tanto do estilo de vida das ilhas que resolveu ficar por um tempo e conseguiu um emprego como vendedor de enciclopédias pra se bancar. As vendia de porta em porta mas logo descobriu que não era isso que buscava. Partiu então para o Japão. 

Lá, se aprofundou na cultura local. Estudou o budismo e o xintoísmo. Procurou sua espiritualidade. Visitou a Bolsa de Valores de Tóquio e ficou chocado com o caos.

Ainda no Japão conheceu os seus primeiros fornecedores de tênis, com quem encomendou sua primeira remessa por 50 dólares, o que foi um dos momentos mais excitantes de todo aquele ano.

Queria voltar correndo para os Estados Unidos e esperar pelas amostras. Mas ainda não estava pronto. Precisava explorar o mundo. Queria ver o que mais surgiria na sua frente. 

Foi a Hong Kong, Filipinas, e viu as ruas do Vietnã já infestadas de soldados americanos preparados pra uma guerra que já estava por começar. 

Jerusalém, Roma e Florença. Bebeu uma grande caneca de cerveja no bar onde Hitler começou a confusão. Passou pelas ruas com cheiro de café de Viena. Voou para Londres. E teve uma experiência fantástica em Atenas - terra de Sócrates, Platão e Aristóteles.

Por lá ainda conheceu um personagem muito marcante e especial. Nike, a deusa grega da força, velocidade e da vitória.

Muitas ideias surgiram dessa viagem que durou mais de um ano. Pôde observar o mundo com seus próprios olhos. Aprender com pessoas que cruzaram seu caminho, como quando dois americanos radicados no Japão o ensinaram a negociar com asiáticos. Isso lhe rendeu bons contratos com fábricas japonesas durante anos!

Começar o meu negócio era a única coisa que fazia os outros riscos da vida - casamento, Vegas, lutas com jacarés - parecerem coisas que nunca dariam errado. Mas a minha esperança era de que, quando eu fracassasse, tudo acontecesse rapidamente, para que tivesse tempo suficiente, anos suficientes, para colocar em prática todas as lições duramente aprendidas. Eu não era muito bom no estabelecimento de objetivos, mas esse objetivo passava pela minha cabeça todos os dias, até tornar-se o meu mangra interior: FRACASSE RÁPIDO.
— Phil Knight

Poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre essa jornada inspiradora e tudo o que se desenrolou por causa dela (spoiler: o nascimento e desenvolvimento da Nike) mas certamente não faria de uma forma tão interessante como o próprio Phil em sua autobiografia A Marca da Vitória (original: Shoe Dog). Diria ser essa uma leitura quase obrigatória para empreendedores e amantes de esportes. Recomendo fortemente.

Phil todo feliz com seu novo livro.

Phil todo feliz com seu novo livro.

De acordo com a Forbes, Knight tem um patrimônio estimado de mais de 24 bilhões de dólares, é hoje aclamado por ser o fundador e grande pilar de uma das companhias mais valiosas do mundo, e não se arrepende nem por um segundo de ter rodado o mundo em vez de seguir os caminhos padrões de sua época.

 

Nas minhas pesquisas pra esse blog, tenho encontrado casos e mais casos como esse e o do Howard Schultz, do Starbucks, que escrevi no post anterior. Resolvi então criar a série "Porque viajar pode ser bom para os negócios". Se você sabe de alguma história como essa, compartilha comigo aqui nos comentários. Vamos incentivar essa troca! De quebra, ainda ganho mais um personagem para os próximos episódios.

Porque viajar pode ser bom para os negócios - Episódio Starbucks

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Milão, Itália. Fevereiro de 2016. Howard Schultz retorna mais uma vez à cidade que mudou sua vida há 33 anos atrás. Dessa vez com um propósito bem diferente.

Em 1983, desembarcou no país europeu para participar de uma feira internacional  de utilidades domésticas. Como diretor de marketing, representaria uma empresa de Seattle que possuía quatro lojas e vendia grãos de café.

Mas suas caminhadas despretensiosas pelas ruas é que o fizeram perceber que tinha algo bem valioso à sua frente. 

Se impressionava quando parava nos cafés locais com a habilidade dos baristas milaneses. Eles moíam o grão, vaporizavam o leite e serviam os clientes com movimentos tão leves e precisos que pareciam reger uma orquestra.

Óperas tocando ao fundo criavam uma atmosfera diferente. As lojas serviam como ponto de encontro. Havia um ritual ali. Uma intimidade. Os frequentadores eram conhecidos pelos nomes. Era uma experiência realmente incrível! 

 

Os italianos criaram o teatro, o romance, a arte e a magia em desfrutar um café expresso.
— Howard Schultz

O americano ficou fascinado. Sua ida à Europa tinha tomado rumos bem diferentes do planejado. Animado, não via a hora de levar tudo isso pros Estados Unidos e revolucionar o que estava sendo feito lá. Mas apesar do sucesso de uma loja protótipo, não conseguiu convencer seus superiores a adotar a nova estratégia nas outras filiais. Era uma mudança muito radical.

Ainda assim, não desistiu. Acreditava tanto que esse era o caminho a ser traçado que dois anos depois abriu seu próprio café, o Il Giornale. 

E em 1987 a grande oportunidade bateu à sua porta. Sua antiga empresa passou por problemas financeiros e Schultz conseguiu comprá-la. Implementou tudo o que o que o fez sonhar em 1983 e o resto é história. Howard é presidente e CEO do Starbucks desde então.

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Hoje é o maior negócio relacionado ao café do mundo com mais de 24.000 lojas espalhadas em 70 países e nada disso teria acontecido se Howard não tivesse aprendido com pessoas e negócios de uma cultura completamente diferente.

Tudo o que fizemos está baseado nas maravilhosas experiências que tive por lá.
— Howard Schultz

Ah, a volta de Schultz a Milão em 2016 foi pra abrir a primeira loja Starbucks onde tudo realmente começou: na Itália, bem longe de casa.